Pedro Rocha
pedrorocha@opovo.com.br
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A cidade fechou as portas diante das ameças de arrastões e assaltos. Avenidas de Fortaleza ficaram desertas em pleno dia útil, deixando a cidade entre a tranquilidade dominical e o terror iminente
Fortaleza amanheceu sobressaltada ontem. A capital cearense já havia dormido na segunda com os boatos de assaltantes aterrorizando suas ruas. Um pesadelo confuso, que misturou relatos verossímeis com montagens fotográficas descaradas. A Internet alimentou o pânico. No asfalto, o medo seguiu curso parecido, até o momento em que, no segundo dia útil do ano, a cidade ganhou ares de filme de faroeste, abrigada sob sete chaves dos foras-da-lei.
A notícia de que as lojas do Centro estavam fechando as portas chegou no meio da manhã. Em pouco tempo, arrastão caiu na boca do povo. “O negócio é sério...”, comentou um segurança privado. A expressão viveu seu dia de glória, resumindo na entonação o clima de suspense. Supermercados, colégios, restaurantes, academias, a cada minuto um novo estabelecimento supostamente era vítima da horda de meliantes à solta. Nem hospital era dispensado, dizia-se.
Os relatos guiaram a reportagem ao Instituto do Câncer, na Parquelândia, onde bandidos estariam praticando uma série de assaltos. Em frente ao local, o Tempero do Sertão registrava boa clientela no almoço. Os funcionários do restaurante minimizaram o terror. No entanto, o hospital estava com suas portas principais fechadas. Por precaução, a entrada dos pacientes passara a ser feita pelo estacionamento.
“Tentaram assaltar uma mocinha aqui na frente”, afirmou Márcio Ferreira, 38, segurança do Instituto.
A vendedora ambulante Valda Felix, 52, completou: “Já assaltaram aqui a Pague Menos, o Banco do Brasil, a Maternidade Escola. Roubaram 40 motos no Pinheiro. Invadiram o Christus também, as professoras saíram correndo, os meninos chorando”, contou Valda.
No colégio, o fato não se confirmou. Segundo um funcionário, o arrastão teria passado de raspão, na rua de trás. Quanto aos professores e alunos, estavam de férias.
Aldeota
No meio da tarde, fiando-se ou não nos boatos, um fato era inegável: Fortaleza havia parado. Avenidas congestionadas por um toque de mágica transformaram-se em vias expressas de clima dominical. Funcionários das lojas do Centro encerram o expediente, já estavam indo embora para casa e o movimento na Praça do Ferreira escasseava.
Os principais corredores comerciais da cidade ficaram vazios. Na Aldeota, avenidas como Dom Luís e Santos Dumont estavam praticamente desertas. O cenário se alterava apenas nas paradas de ônibus, onde trabalhadores se concentravam à espera do transporte para casa sem saberem ao certo se a anunciada paralisação dos motoristas de ônibus se confirmaria.
Os shoppings permaneceram abertos, com exceção de algumas lojas, que optaram pelo contrário. Ao entrar no maior deles, nada poderia indicar o caos lá fora, a não ser o número maior de seguranças, que foram prostrados nas entradas do centro comercial.
Na Praia do Futuro, a depender da barraca, os clientes pareciam não saber o que acontecia no restante de Fortaleza. “Não senti nenhum tipo de ameaça”, afirmou Sônia Martins, moradora da cidade que aproveitou a tarde para relaxar com duas amigas mineiras na orla.
Curiosamente, a barraca logo ao lado estava fechada pelas ameaças de arrastão no lugar. (Colaborou Natalie Caratti)
ENTENDA A NOTÍCIA
Fortaleza parou ontem diante da sensação de insegurança decorrente da greve dos policiais militares. O comércio fechou as portas e deixou a cidade com clima de feriado. Enquanto uns se apavoraram com os boatos de violência, outros aproveitaram para tomar sol na praia.
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